Sei que muitos dos que me lêem são professores. Terão posições políticas diversas, mas isso não é importante, verdadeiramente. Não sei, também, se estão ou não de acordo com a greve, se foram ou vão ser grevistas ou não. Mas também isso não é importante. O importante, para mim, neste momento, é, por um imperativo de consciência, escrever o que penso sobre esta greve. Com ela, os professores não estão a prejudicar um patrão: estão a prejudicar os alunos. E não posso entender como professores, friamente, se acham no direito de prejudicar os alunos. Infelizmente, tenho de considerar essa atitude pouco ética. Se pensam embaraçar a Ministra, os Secretários de Estado, o Governo, enfim – acredito pouco que embaracem. A opinião pública – quantos pais não se angustiam neste momento – voltar-se-á contra os professores. Os alunos que esperavam ter exames e não os tiveram – como se sentirão? Vão fazê-los mais tarde, quando? Entristece-me profundamente que isto aconteça e apesar do meu optimismo pergunto-me o que querem os portugueses para Portugal, quando os professores, que deviam assumir-se como os mais esclarecidos, são os primeiros a atear o fogo. Para onde vamos?
The past is malleable and flexible, changing as our recollection interprets and re-explains what has happened.... Peter Berger
2005/06/20
Esta greve
Sei que muitos dos que me lêem são professores. Terão posições políticas diversas, mas isso não é importante, verdadeiramente. Não sei, também, se estão ou não de acordo com a greve, se foram ou vão ser grevistas ou não. Mas também isso não é importante. O importante, para mim, neste momento, é, por um imperativo de consciência, escrever o que penso sobre esta greve. Com ela, os professores não estão a prejudicar um patrão: estão a prejudicar os alunos. E não posso entender como professores, friamente, se acham no direito de prejudicar os alunos. Infelizmente, tenho de considerar essa atitude pouco ética. Se pensam embaraçar a Ministra, os Secretários de Estado, o Governo, enfim – acredito pouco que embaracem. A opinião pública – quantos pais não se angustiam neste momento – voltar-se-á contra os professores. Os alunos que esperavam ter exames e não os tiveram – como se sentirão? Vão fazê-los mais tarde, quando? Entristece-me profundamente que isto aconteça e apesar do meu optimismo pergunto-me o que querem os portugueses para Portugal, quando os professores, que deviam assumir-se como os mais esclarecidos, são os primeiros a atear o fogo. Para onde vamos?
2005/06/19
A comunicação social que temos
Noticiário das 11 e 58 de hoje, domingo, 19 de Junho de 2005 (11 e 58 é um preciosismo interessante) na TSF. Notícia: “Os Sindicatos dos Professores vão pôr o Ministério da Educação em tribunal”. Motivo, abonado por representantes da FENFROP e da FNE: “Há um despacho da Ministra que ‘ameaça’ os professores que não cumpram os serviços mínimos decretados com processos disciplinares”. Contacto telefónico com o Secretário de Estado da Educação. Valter Lemos esclarece que não há qualquer despacho mas apenas um parecer da assessoria jurídica e que se aplicará apenas a lei da greve no caso de quem falte aos serviços mínimos. O ouvinte que sou fica confuso: que parecer é esse? Por que se chama despacho a um parecer? O Secretário de Estado fala longamente à roda do mesmo assunto, mas este aspecto não é explorado por quem o interroga.
Noticiário das 12 e 30 da TSF (agora é à hora certa). Notícia: “Os Sindicatos dos Professores vão pôr o Ministério da Educação em tribunal”, etc., etc. O quê? Não serviu de nada a entrevista telefónica ao Secretário de Estado? Pouco adiante que depois a recuperem. Isto é mau jornalismo.
Nota, para melhor compreensão. Não sei se é legal ou não decretar os serviços mínimos neste caso e deixo aos tribunais a decisão. Mas como cidadão interessa-me saber a questão do parecer transformado em despacho, porque quero saber quem aldraba quem – se os Sindicatos, se o Ministério. Isto é: quero ter uma informação correcta. Lamento que a TSF, que é a rádio que normalmente me informa, não o faça.
Outra nota, para ainda melhor compreensão. Independentemente de saber se os serviços mínimos decretados são legais ou não, é para mim muito claro que o que é, não ilegal, mas eticamente reprovável e digno do maior desprezo é a convocação da greve para os dias de exame. Quem me conhece sabe que defendo sempre os professores contra os ataques injustos de que muitas vezes são alvo. Neste caso, os Sindicatos dos Professores não têm direito a defesa; espero que os professores lhes dêem a resposta.
2005/06/17
Há semanas assim…
Já uma vez escrevi neste blog que não me sinto obrigado a uma presença diária: nem sempre os meus afazeres mo permitem. E esta semana foi uma daquelas em que a minha agenda tinha imensas parecenças com um menu de restaurante. Foi uma sessão integrada nas Jornadas da Prática Pedagógica dos futuros professores do ensino básico, foram sessões num grupo de trabalho que prepara o Regulamento para a aplicação dos EU (créditos europeus), duas audições para um processo de averiguações, duas reuniões das comissões especializadas a que presido, tudo isto até quarta-feira; na quinta fui a Lisboa participar num júri de mestrado, e hoje de manhã, a acabar a semana, mais uma reunião na Reitoria. Por isso foi tão escassa a minha produção e as minhas visitas aos blogs amigos. Espero recuperar no fim-de-semana. Durante as viagens Braga-Lisboa e volta pensei em vários temas que a minha memória quer recuperar. Um deles será relembrar uma viagem de automóvel entre Lisboa e Braga nos anos 70… Podia demorar umas sete horas! Ou entre Lisboa e Faro, pelo Caldeirão, demorando o mesmo tempo… Outros tempos.
As Crónicas na RUM (12)
No passado dia 10, vi pela televisão uma mini-manifestação que aguardava as personalidades que tinham assistido em Guimarães às cerimónias comemorativas do dia de Portugal, de Camões e das Comunidades. Eram certamente nossos alunos dos cursos de formação de professores, que protestavam contra as notícias divulgadas acerca da sua situação como estagiários. Creio que uma das faixas desfraldadas dizia mesmo que queriam estágios, o que aliás me parece não estar em causa.
Independentemente daquele discurso habitual que numa sociedade democrática todos os cidadãos têm o direito a manifestarem-se, vale a pena pensar nas razões que levem às manifestações. E tanto quanto me parece, aquela manifestação pecou por ser precoce. Na verdade, sabe-se muito pouco (à hora em que gravo esta crónica) sobre o que vão ser os estágios novo modelo. E o que se sabe, podendo levar a uma manifestação, não tem nada a ver com a não realização de estágios. A saber: os estudantes do 5º ano das licenciaturas em ensino vão deixar de ser considerados docentes e como tal cessam de ter direito a um vencimento; as actividades lectivas passarão a ser desenvolvidas em turmas de professores da escola (orientadores, ou como lhes queiram chamar).
Ora bem, a expectativa de em Setembro passarem a ter um vencimento e não o terem pode constituir motivo para manifestação (sobre isso poderemos falar mais tarde). Alterar o padrão do estágio, neste momento, não deve constituir motivo para contestar (por isso a minha surpresa por os manifestantes dizerem que queriam estágios, porque os vão ter).
Serão melhores? Piores? Aí, só depois de definida a praxis se pode argumentar. Mas posso desde já avançar alguns considerandos. Muito poucos países no mundo têm um estágio tão longo como Portugal, ou seja, um ano lectivo completo. Ainda que à primeira vista possa parecer que deva ser assim, porque é a melhor maneira de colocar o estagiário “em situação”, vendo o desenvolver de uma turma ao longo do ano, sendo responsável integral pelas aprendizagens dos seus alunos, tudo sob a supervisão de duas tutelas – escola e Universidade – a verdade é que muitas vezes este esquema tinha escondidas muitas ratoeiras. Nem sempre a dupla supervisão funcionava bem, nem sempre o orientador cumpria, e, finalmente, nem sempre o estagiário, a iniciar-se numa actividade para a qual terá muita teoria mas pouca prática, se sentia seguro. Isto para não falar nos casos em que não havia turmas das disciplinas por escassez de alunos ou quando os estagiários tinham de ir para terras longínquas, com graves prejuízos para eles e, digamos, para a própria Universidade.
Repito: não sei se as decisões do Ministério irão numa direcção certa ou não; o que não se pode é, antes de as conhecer, contestar. A questão do pagamento é outra coisa, mas nada tem a ver com a pedagogia; se há medidas que impõem austeridade, devem ser distribuídas, e desta vez calhou a sorte a alunos universitários que, contrariamente a colegas de outros cursos, tinham estágios remunerados.
O assunto não se esgota hoje; a ele voltarei, em breve.
Até para a semana.
2005/06/15
Cuidado com o que se diz…
De uma pequena conversa numa mini-reunião recordei hoje uma poesia de Vítor Hugo que aprendi de cor, e ainda sei de cor, na aula de Francês do professor André Velasco, no Passos Manuel, há… uns cinquenta e cinco anos. Intitulava-se “Le mot” e é assim.
Braves gens, prenez garde aux choses que vous dites!
Tout peut sortir d'un mot qu'en passant vous perdîtes;
TOUT, la haine et le deuil !
Et ne m'objectez pas que vos amis sont sûrs et que vous parlez bas.
Écoutez bien ceci:
Tête-à-tête, en pantoufle,
Portes closes, chez vous, sans un témoin qui souffle,
Vous dites à l'oreille du plus mystérieux
De vos amis de coeur ou si vous aimez mieux,
Vous murmurez tout seul, croyant presque vous taire,
Dans le fond d'une cave à trente pieds sous terre,
Un mot désagréable à quelque individu.
Ce MOT – que vous croyez que l'on n'a pas entendu,
Que vous disiez si bas dans un lieu sourd et sombre –
Court à peine lâché, part, bondit, sort de l'ombre;
Tenez, il est dehors ! Il connaît son chemin;
Il marche, il a deux pieds, un bâton à la main,
De bons souliers ferrés, un passeport en règle;
Au besoin, il prendrait des ailes, comme l'aigle!
Il vous échappe, il fuit, rien ne l'arrêtera;
Il suit le quai, franchit la place, et caetera.
Passe l'eau sans bateau dans la saison des crues,
Et va, tout à travers un dédale de rues,
Droit chez le citoyen dont vous avez parlé.
Il sait le numéro, l'étage ; il a la clé,
Il monte l'escalier, ouvre la porte, passe, entre, arrive
Et railleur, regardant l'homme en face dit:
"Me voilà ! Je sors de la bouche d'un tel."
Et c'est fait. Vous avez un ennemi mortel!
Não é um poema notável?