2005/06/02

As crónicas na RUM (10)


Ontem foi dia mundial da criança. Não devia haver este dia, porque em todos os dias a criança devia ser lembrada, protegida, amada. Mas a praga dos “dias de” chegou à criança: que havemos de fazer? Aceitar, claro. Por isso, ontem, diversas organizações proporcionaram às crianças um dia com mais atenções, e eu só espero que as próprias famílias se tivessem sensibilizado e tivessem dado mais atenção às suas crianças. Tudo o que se faça por elas não é demais, mas, repito, não num dia, todos os dias!

Devo dizer que nem me lembrava que ontem seria o dia da criança, não fosse na véspera ter lido no jornal uma notícia que mo fez lembrar. Dizia a notícia que aquela criança indonésia que foi encontrada viva, muitos dias após o maremoto (vulgo, tsunami) de Dezembro do ano passado, de seu nome Martunis, envergando uma camisola da selecção nacional portuguesa, ia estar ontem – dia mundial da criança – em Lisboa, em contacto com outras crianças portuguesas de uma escola da capital, “sendo recebida” (palavras textuais da notícia) pelo presidente da Federação Portuguesa de futebol, um senhor muito conhecido chamado Gilberto Madail.

É evidente que, como todos ou quase todos nós, quando soube do caso, não deixei de me comover, mas sem perder a noção da casualidade da camisola da selecção estar a influenciar a nossa sensibilidade. Porque o que era importante na altura era o milagre da sobrevivência; se o Martunis tivesse uma camisola da selecção grega, porque deveria ser menor a nossa emoção? Tenho as maiores dúvidas que a camisola das quinas no corpo de uma criança humilde quisesse ser mais do que essa casualidade. Mas ela valeu-lhe uma série de benefícios (do qual esta viagem não será o mais importante). Ainda bem para ele. Porque no meio da tragédia teve sorte.
Não quero parecer muito crítico, talvez nem tenha razão em dizer estas palavras, mas causa-me uma certa perplexidade esta atenção particularizada a uma vítima de uma tragédia que tocou tanta gente. A generosidade com que os portugueses contribuíram para as vítimas, de uma maneira global, não só a entendo como a aplaudo; a que se concede a uma criança apenas porque envergava uma camisola da selecção nacional de futebol do nosso país, confesso, não a sinto como muito legítima.

Acredito que muitos não pensem como eu, e aceito que assim seja, claro. Mas estas crónicas devem reflectir a minha opinião, e por isso a dou a conhecer.

Bom, mudemos de tema: entrámos na última semana de aulas na Universidade, vamos agora ter uma pequena pausa e depois vêm os exames. Meus caros estudantes que me escutem, vamos aproveitar este pouco tempo para, nuns casos, apenas arrumar melhor os conhecimentos, noutros, fazer um esforço, maior ou menor, para tentar salvar o ano. É tempo de deixar de lado as festas e de se ter mais em atenção os livros e os apontamentos. A todos desejo bons êxitos.

Até para a semana.

2005/06/01

Uma nova escravatura


Ouvi e apesar de saber que é assim, quase me indignei. Porque podemos saber que certas coisas acontecem mas tentar pensar que não é bem assim, que há uma possibilidade de a realidade não ser tão cruel. Na TSF, logo de manhã, entrevista-se um jogador de futebol actualmente em Inglaterra, mas que se fala pode ser transferido para Portugal. O jogador em causa diz que não sabe, que tem mais dois ou três anos de contrato com o clube inglês. E remata (não a bola, mas o discurso): “ Eu nem sei se o (nome do clube) me quer vender!”.

Eu, que cresci nos tempos do amor à camisola, sei que hoje tudo é diferente, que também aqui o dinheiro fala mais alto. Mas ser o próprio jogador a dizer a verdade (que ele é neste momento uma mercadoria, sem vontade própria) é verdadeiramente revoltante.

O Alfa nº 135 (Lisboa, Santa Apolónia: 18 e 55)


Um dos benefícios do Euro 2004 para a cidade de Braga (e foram bastantes) foi o podermos passar a usufruir dos serviços do Alfa que, em menos de quatro horas, nos põe em Lisboa (e vice-versa). Claro que o tempo gasto para os 350 quilómetros é ainda exagerado, mas a comodidade é grande. Neste princípio de semana tive de vir a Lisboa, e uma vez mais preferi o comboio ao automóvel, e por isso estou de regresso a Braga no Alfa das 18 e 55… Anoitece, acabei de escrever a crónica para a Rádio Universitária que vou gravar amanhã, e decidi accionar a minha memória flutuante…

Na verdade, lembrei-me da minha primeira viagem de comboio de Lisboa ao Porto, num ano que situo entre 1942 ou 1943. Era uma criança, de facto, mas lembro com nitidez muitas das coisas que me aconteceram nessa semana em que, com o meu irmão, tive a alegria de fazer uma grande viagem… Tínhamos na altura um tio a viver no Porto, e, por alturas do S. João, fomos então passar uns dias à Invicta.

Havia então um comboio que se chamava pomposamente Flecha de Prata (por causa da cor das carruagens, porque quanto à velocidade de flecha, estávamos conversados!). A viagem demorou uma eternidade, creio que umas doze horas. Apesar de flecha, parava em tudo o que tinha um cais de embarque… Recordo-me dos pregões nas estações (que aliás duraram mais alguns anos): “Arrufadas de Coimbra e barricas de ovos moles!” ou “Água fresquinha!”…

É curioso como a memória guarda imagens tão longínquas no tempo. Claro que me lembro bem melhor da viagem de ida do que da de volta, estava tão excitado com a minha primeira grande viagem!

Bom, parei agora em Aveiro, já não se vendem na estação barricas de ovos moles, agora muito mais eficientemente publicitados (agradeço às Fábulas da Saltapocinhas a informação sobre o site…), e por isso termino esta evocação com uma lembrança da noite de S. João desse ano, nas Fontaínhas: ainda levei com um verdadeiro alho-porro na cabeça, porque nos anos quarenta a horrenda moda dos martelinhos não podia existir…

2005/05/28

O Maio de 1965 (3)


Manuscrito do plano da minha lição de Exame de Estado

Dia 28 de Maio de 1965. Lembro-me de como estava o dia, em Coimbra: cheio de sol e já quente. A aula era às 11 e 30, numa sala normal. Tinha logo de manhã trazido os dois textos que ia usar para serem duplicados na máquina a álcool que o liceu tinha, pedira um mapa no gabinete de Geografia, e nos dez minutos antes da aula começar (o intervalo dos alunos) estive a desenhar no quadro um croqui da batalha de Alcácer-Quibir. Não havia no Liceu nem diapositivos nem gravuras capazes para eu usar.

Recordo-me que os meninos entraram muito compostos e se portaram muitíssimo bem. É preciso ver que estavam a ser observados (como eu!) por um júri de sete membros, que se sentaram no fundo da sala. Quem eram esses membros? A presidir estava um professor da Faculdade de Letras de Coimbra, o Doutor Torcato Sousa Soares. Além dele, os seis metodólogos dos três liceus normais: Fernando Gilot (Filosofia) e António Stott Howorth (História), de Lisboa; Adelino Carvalho Martins (História) e Cândido Ferreira (Filosofia), do Porto; e Alberto Martins de Carvalho (História) e André Vicente Lapa (Filosofia), de Coimbra. Digo-lhes que era um friso!
Escrevi, nessa tarde, no meu diário de estágio:

“Não é o momento oportuno – talvez que esse momento nunca mais chegue! – para fazer o balanço da lição que dei.
Estava, não nervoso, mas excitado: por tal forma que a meio da lição se me “secou a garganta”…
Quando terminei, estava coberto de suor, exausto. Satisfeito – para mim, realizara uma lição ao nível de quantas tinha dado durante o meu estágio; usara os processos que na generalidade, se impunham; fizera uma aula mesmo activa: mas… o que diriam «eles»?”

“Eles” acabou por ser ele – o arguente (que durante a aula escrevera, escrevera, escrevera…), o Dr. Carvalho Martins, do Porto – e o seu comentário fez-me muito feliz. Não transcrevo o que escrevi no meu diário porque poderia ser mal interpretado – estava tão contente que exagerei, certamente, nos elogios em causa própria.

A quarenta anos de distância, contudo, penso que com os meios de que dispunha fiz na verdade o melhor que era possível fazer-se naquelas condições. Com uma turma desconhecida, sem pontos de referência sobre o que conheciam dos antecedentes, perante o olhar inquisitorial do júri, podia ter fraquejado, mas não fraquejei. Claro que hoje faria uma aula completamente diferente, com os meios que poderia dispor.

Recordo-me que a discussão da lição terminou muito tarde – a aula acabou perto do meio-dia e meia hora, houve uma meia hora de intervalo e só depois o júri se reuniu comigo. Lembro-me que o próprio professor da Faculdade de Letras me cumprimentou por ter usado um certo livro que citei na bibliografia. E recordo-me que quando tudo acabou, passada a hora do almoço há muito, nem fome sentia…

O estágio estava prestes a acabar, mas ainda faltavam duas provas. No dia seguinte houve uma prova oral sobre pedagogia geral, e no dia 3 de Junho uma prova escrita sobre métodos de ensino do tema “Movimentos autonomistas – Emancipação das Colónias espanholas da América”. Provas que na altura já pouco significavam para mim, que sabia que a lição era sempre a que marcava.

O estágio, como já disse em post anterior, foi muito importante na minha vida profissional. Não tanto pelo que me ensinaram mas pelo que aprendi (pode parecer estranho mas não é). Tive uma excelente relação de trabalho com todos os meus colegas de estágio, do meu e de outros grupos, vivi intensamente todos os momentos, e tive ainda ocasião de, não sendo aluno da Universidade, perceber o encanto de estudar em Coimbra. Num momento muito difícil da minha vida, um mês e pouco depois de começar o estágio, em que caí gravemente doente, experimentei a solidariedade coimbrã, a níveis que não imaginava, como ter sido tratado sem pagar um centavo por um professor catedrático da Universidade, o Doutor Antunes de Azevedo, que se deslocava a casa para me ver, visto eu não poder andar.

Como disse, nesses tempos havia exigência. Não digo que não exista hoje, claro, mas estou certo que poucos trocariam os esquemas que existem pelo estágio comprido, cheio de patamares com provas, que vigorava nos anos sessenta.

Termino aqui a minha evocação do que fiz há quarenta anos. Ainda no activo: se acrescentar, a esses quarenta, os seis anos anteriores, tenho quarenta e seis anos de serviço público. Não terei remorsos pois, quando me aposentar, sei que não lesei o erário público…

2005/05/27

O Maio de 1965 (2)


Do meu Diário de Estágio...

Faz hoje quarenta anos estava na véspera do “grande dia”. O grande dia, como já disse há uns tempos, era o de “dar” a minha lição de Exame de Estado. Desde que prestara as provas de “cultura” (a que me referi em post anterior) que aguardava a marcação da data, a qual só foi conhecida uns dias antes. Nesse 27 de Maio de 1965 fui, pelas 9 horas, à Biblioteca do Liceu D. João III, e na presença dos dois metodólogos, eu e os meus dois colegas fomos convidados (não me recordo por que ordem) a tirar um papelinho dobrado em quatro de dentro de uma redoma.
O meu papelinho (gravura) ditou a minha sorte: “4º A, História”. Isto significava que eu tinha de ir à procura do livro de ponto da turma A do 4º ano (actual 8º), ver qual a última rubrica do programa que tinha sido dada, e depois, preparar a aula sequente. Nunca tinha contactado com aquela turma – não era turma de estágio – e nem sabia quem era o professor que dava História. Aguardei pelo intervalo, falei com a professora (não tenho o nome dela nos meus registos…), soube o ponto do programa que devia abordar, e pedi-lhe algumas indicações sobre os alunos, quem eram os mais participativos… Obtive dela uma planta da sala com os nomes dos alunos. Depois, fui à sala e pedi ao colega que lá estava se no fim me podia dispensar uns minutos para eu falar com os alunos. Queria pô-los de sobreaviso para não estranharem a minha presença no dia seguinte. De uma maneira geral estavam preparados para essa contingência, num Liceu com estágio este tipo de coisas acontecia com naturalidade. Gostei da turma, teria uns trinta e oito alunos (era muito frequente naquele tempo, turmas com esta dimensão), mas eram vivos, e prometeram ajudar-me. Depois… bem, depois, fui para casa pensar no plano da aula, que tinha o seguinte tópico que podem ver na gravura.
Conservo, nos meus papeis, o rascunho do plano de lição que tinha de entregar, antes da aula, aos metodólogos. Tinha nessa altura uma máquina de escrever portátil, uma Hermes Baby. Não havia ainda fotocopiadoras (se havia, no Liceu eram desconhecidas) e por isso, para fazer cópias, usava papel muito fino para que as letras obtidas à custa do papel químico se conhecessem… Só que, por isso, não fiquei com nenhuma para mim. Lembro-me de à tarde ainda ir procurar uns textos à Biblioteca e de, depois de jantar, ter decidido prescindir de ver, no Café, a final da Taça dos Clubes Campeões Europeus entre o Inter de Milão e o Benfica, receoso de esse tempo me vir a fazer falta. Hoje, a quarenta anos de distância, só não acho que fui tolo porque o Benfica perdeu (1-0) e foi melhor saber de chofre, no outro dia, do que ir sofrendo ao longo de 90 minutos…

De qualquer modo, devo ter dormido bem. Estava contente com o plano; estava de acordo com a metodologia seguida, que na altura era fundamentalmente interrogativa-expositiva, com recurso a documentos (textos, gravuras, diapositivos). Tinha confiança em ter assimilado bem a arquitectura da lição; só esperava ser calmo como de costume.

Amanhã, o dia em que fará 40 anos que dei a minha aula, escreverei sobre ela.