2005/05/11

O virtual e o real


Quando me comecei a interessar pelo ensino a distância (mesmo antes da explosão dos computadores!) construí a ideia de que não seria desejável que a “distância” fosse absoluta, isto é, que a presença humana real deveria ser necessária a espaços. Hoje essa ideia consolidou-se, apesar de a tecnologia ter evoluído como evoluiu e permita o que há largos anos era impensável. Creio que a maior parte dos cursos promovidos “a distância” têm sempre uma acção presencial, mesmo quando se trata de cursos com alunos que vivem longe do centro de decisão. Ontem pensei muito nessa minha ideia por analogia com o que se passa com o mundo dos blogs. Numa actividade promovida por uma escola da minha Universidade, participaram três “bloggers” que me conhecem da "Memória" e que eu conheço dos seus blogs e pelos comentários que fazem. Tivemos ocasião de nos conhecer realmente. De conversar, mesmo em pé e por cinco minutos, de nos "sentirmos". Elas e ele (ficam por identificar…) deixaram de ser virtuais e passaram a ser reais. E eu pensei que esta era mais uma das riquezas do mundo dos blogs. E não terá sido a brincar que sugeri, já na despedida, que seria interessante promover um encontro – real – de bloggers interessados nos problemas da educação, a todos os níveis.

Minhas amigas e meu amigo, gostei muito de vos conhecer. Graças aos blogs!

A galeria dos meus professores (2)


Nos meus tempos de escola primária (designação que desapareceu sem se perceber muito bem porquê) tive três professores. Da 1ª à 3ª classe o meu professor na Escola Conde de Ferreira foi o professor Rita. Era um homem baixote e gorducho, quase calvo, sempre de bata branca, mas que apesar de não ter uma figura imponente geria bem a sua sala de aula. Recordo-me que ele morava no edifício da escola e tinha uma filha chamada Júlia, mais ou menos da minha idade. No final da 3ª classe foi colocado em Lisboa e por isso mudei de professor – e de género: na 4ª classe tive uma professora, a D. Filipina, uma mulher jovem, enorme (talvez esteja a exagerar, mas era forte, de facto). Já nessa altura ela não morava no Seixal, ia e vinha todos os dias de Lisboa. A escola ficava perto do cais de embarque, de modo que alguns de nós íamos esperá-la ao barco e fazíamos depois cortejo até à escola.

Que posso dizer das capacidades pedagógicas de ambos?

Como disse no post anterior, quando entrei na escola já sabia ler, e mais, gostava de ler, e isso deve ter-me auxiliado e de que maneira. Tenho a ideia de serem os dois professores ”à antiga”, ou seja, exigindo muita coisa de cor, e como eu tinha boa memória e lia muito não me afligia.
Só me lembro de uma vez o professor Rita ter tido uma fúria quando eu esborratei uma flor muito bem desenhada (tinha jeito para desenho, mas não tinha paciência para com o lápis de cor!): disse-me das boas. Da D. Filipina não me lembro de alguma vez se zangar, aliás ela gostava muito de mim (é verdade, seria estranho se o não dissesse).

Mas eu disse três professores. Quem foi o terceiro? Ora bem, nessa altura havia a mania de, tendo em vista o exame de admissão aos liceus – ou às escolas técnicas – pôr os meninos em “explicações” particulares… Por isso, a partir de uma dada altura, passei a, depois das aulas (que acabavam às três e meia ou quatro horas, não sei bem), ir a casa de um outro professor na vila, o professor Ventura. Era também um homem forte (foi uma tendência!), e gostei bastante da forma como recapitulava comigo o que se entendia eu deveria saber. Sentava-se a meu lado e fazia perguntas, e explicava para lá do que eu sabia. De algum modo, creio que apesar de eu ser bom aluno ele me deu algo mais. A esta distância eu diria que ele se apercebeu que podia ser uma espécie de tutor mais do que explicador, porque eu não precisaria de explicações, mas sim de desenvolvimento.

Nesses meses, eu tinha escola de manhã à noite. E sabem? Só me fez bem.

Não tenho pois más recordações das minhas escolas na primária. Contudo, se eu me dei bem, recordo-me ainda de alguns dos aspectos negativos: se eu não era castigado, colegas meus eram regularmente premiados com palmatoadas; os alunos na sala eram colocados estrategicamente – os “bons” à frente e os “maus” atrás; e, sem dúvida, o que interessava era saber, mais do que raciocinar e ser criativo.

No ano seguinte a terminar a escola, o meu Pai foi transferido dos escritórios da firma onde trabalhava, no Seixal, para Lisboa. Perdi assim o contacto com os meus colegas de então. Nada sei de nenhum deles, hoje. E tenho pena.

2005/05/10

A galeria dos meus professores (1)

Os meus primeiros professores foram a minha Mãe e o meu Pai. Como toda a gente, penso. Foram eles que me deram condições para eu percepcionar o mundo e me ajudaram – melhor ou pior, devo dizer – a dar um sentido à minha vida. Em termos de relação, eram diferentes: o meu Pai foi sempre muito mais camarada, mais aberto, sempre pronto a desculpar as traquinices, a minha Mãe mais reservada, dura, por vezes mesmo severa, mas, claro, muito amiga também. Nunca me esquecerei de um episódio que caracteriza a sua dureza. Quando acabei o exame da 4ª classe e fui classificado como “Distinto” (ainda haverá quem se lembre dessas práticas…) e corri para casa feliz para dar a novidade, as suas únicas palavras foram “Não fizeste mais do que a tua obrigação”. Doeu-me, na altura, e a impressão perdurou. Ainda hoje reproduzo a cena.

A minha Mãe, como era tão comum nos anos 30, 40 do século passado, não trabalhava – era das que tinha no BI aquela designação aviltante: “Doméstica”. O meu pai era um contabilista de qualidade, um excelente profissional, que vivia para o trabalho e para a família. A minha memória restitui-me uma infância relativamente feliz. Os meus pais criaram-me (e aos meus irmãos) adoptando uma atitude excessivamente protectora, tentando e de algum modo conseguindo isolar-me do mundo das outras crianças, do mundo “da rua”. Vivíamos nessa altura no Seixal (na “outra banda” de Lisboa…) e até começar a escola primária não saía de casa sozinho, vendo da janela os outros meninos brincar (e nessa altura bem se podia brincar na rua, porque automóveis… era o “lá vem um”!). A escola socializou-me um pouco, mas só muito mais tarde me libertei das asas protectoras; e hoje, refazendo um passado que apesar de passado não está longe da memória, acredito que como professores os meus Pais, aí, falharam. Não erraram noutras coisas: lembro-me que mal comecei a ler era o segundo da casa a folhear O Século, o jornal que o meu Pai comprava e que todas as manhãs o “homem dos jornais”, como se dizia, lançava em jeito de discóbolo da rua para a varanda do 2º andar, se não chovia. E depois, a ler os livros existentes em casa, que se não eram muito numerosos, existiam: foi assim que li a História de Portugal do Rocha Martins e o Conde de Monte Cristo de Alexandre Dumas (já disse isto no Questionário dos livros…)

Não sei muito bem como aprendi a ler, mas sei que quando fui para a escola já sabia. De algum modo os meus estudos eram acompanhados, em especial pela minha irmã; e como fui sempre um bom aluno (passe a imodéstia) nunca terei sido fonte de preocupações, a não ser quando chegou a altura de, após a 4ª classe, seguir estudos. Nesse longínquo ano de 1947, não havia ensino secundário no Seixal; havia escolas técnicas no Barreiro e em Almada e Liceus em Lisboa ou Setúbal. Decidiram que iria para Lisboa, e depois de fazer a admissão aos Liceus entrei no Liceu de Passos Manuel.

Uma última palavra para os meus pais-professores: fizeram os sacrifícios necessários para que eu estudasse e concluísse o curso universitário que escolhi. Não vivíamos na abastança e foi muitas vezes preciso um equilíbrio que só mais tarde compreendi plenamente. Penso que herdei do meu pai o rigor e o gosto por ter tudo bem arrumado, e uma grande consciência profissional. Lembro-me de muitas vezes ele me dizer: “Faz o que tens a fazer, mas bem feito”. Tenho procurado seguir estas palavras.

2005/05/09

Memórias da II Grande Guerra

Quando a II Grande Guerra começou, eu tinha quase três anos e meio. Não tenho lembranças tão recuadas, embora, por conversas eu tive com os meus pais, situe a minha lembrança mais longínqua precisamente por volta dos três anos: a de uma vacina que tomei no consultório do Dr. Fiadeiro, médico que nos finais dos anos 30 do século XX exercia no Seixal. Foi uma vacina tardia, mesmo para o tempo. Lembro-me de estar sentado numa mesa alta, lembro-me do médico a retalhar a minha coxa direita, e sobretudo lembro-me de um cão preto, enorme, que do lado de fora do consultório, observava a cena. Penso ainda que terei tido muito medo do cão e naturalmente da vacina; isto porque ainda hoje não gosto particularmente de me encontrar com cães desconhecidos e também não gosto de ter de me encontrar com médicos... Nesse quadro de há mais de sessenta anos há também o gradeamento verde que existia a dar mais privacidade ao consultório do Dr. Fiadeiro, que ficava muito perto da igreja da vila.

Mas da guerra, do seu início – nada. Mas já visualizo com nitidez a noite na qual o meu Pai, de acordo com as instruções dadas, colou nas janelas tiras de papel, pôs à porta um balde de areia com uma pá, e apagou todas as luzes: era o “black-out” de prevenção nos tempos da Grande Guerra de 1939-1945. De manhã, foi a surpresa – e disso me recordo com nitidez, também! – o ver pela janela, sobrevoando o braço do rio Tejo que se avistava de casa, muitos balões de barragem. Lembro-me também do racionamento: de haver senhas para comprar bens e de haver falta de manteiga e de azeite, sobretudo… Lembro-me perfeitamente de, algumas vezes, ir com os meus pais e irmãos a Lisboa e estar numa fila, numa loja da Baixa, para comprar manteiga – vendiam uma pequeníssima quantidade por pessoa, mas contavam crianças, pelo que eu era necessário. E muitas vezes a minha Mãe batia as natas do leite para fazer um arremedo de manteiga…

Quando a guerra acabou – está a comemorar-se o sexagésimo aniversário desse evento – eu já era uma criança que espreitava o jornal, que ouvia rádio e seguia as conversas dos adultos. Por isso misturo na minha memória pedaços de conversas preocupadas, diversas alusões ao conflito, figuras dos mapas com muitas setas que O Século publicava, e também algumas imagens que via no cinema, nos jornais de actualidades que precediam o filme principal. Para os mais novos que me lêem, nesses tempos qualquer ser humano, fosse qual fosse a idade, era autorizado a ir ao cinema, nem que fosse para dormir ao colo da mãe ou para fazer uma berraria coroada de valentes “schius” da restante assistência. Lembro-me também de um calendário na parede da cozinha cujo motivo era um soldado, fardado a rigor, com uma espingarda (ou metralhadora) na mão, em pose de guarda. E finalmente, lembro-me da alegria do “acabou a guerra!”, das manifestações que houve em toda a parte – e no Seixal também.

Posso pois dizer que a guerra não perturbou demasiado a minha infância: talvez nunca tenha percebido, na altura, o que estava verdadeiramente em jogo. Só mais tarde compreendi o que foram esses anos da guerra, que só sofremos lateralmente, é verdade, não sei se para nosso bem se para nosso mal. Contudo, nunca foi um facto histórico que me tivesse apetecido estudar com mais profundidade nos seus episódios – preocupei-me sempre muito mais com os aspectos ideológicos que marcaram o seu início e com as reacções dos países que na guerra se envolveram.

Sessenta anos passados a Europa mudou a face, e apesar de todo o “euro-cepticismo” que existe espalhado no velho continente, eu saúdo essa mudança: só a união de países diferentes que querem todavia ser solidários entre si pode prevenir tentações como as que levaram à guerra de 39-45.

Fiquei sem computador…


Ontem (sexta-feira, dia 6), o meu computador apagou-se como um passarinho. Tinha chegado a casa, ainda fui ver o correio que chegara desde que deixara o meu gabinete na Universidade, e comecei a procurar o texto em que iria trabalhar. E de repente, a imagem desapareceu. Na primeira fracção de segundo pensei que faltara a energia, mas na segunda concluí que não podia ser; então para que é que eu tenho o APC, que me garante vinte minutos de energia se faltar a de origem? Conferi, e nada. Não ligava por mais esforços que fizesse. O pior não é o computador em si, é a ligação à Internet, é ficar sem correio, sem jornais, sem blogs… Lá fui hoje pô-lo na casa de saúde (Chip 7) esperando que tenha sido apenas um desfalecimento e não morte total.
Entretanto, só na segunda-feira poderei ter acesso à Internet e publicar este post. Atrasado dois dias, o que me aborrece… Isto porque

há quarenta anos, nos dias 7 e 8 de Maio de 1965

fiz as chamadas “provas de cultura” do meu estágio para professor do ensino liceal.
No dia 7 a prova foi de História. Tinha duas questões para desenvolvimento, a nível exigido para licenciados.

a) O monaquismo.
b) Influências dos Descobrimentos na civilização europeia e na cultura portuguesa.

No dia 8 a prova foi de Filosofia. Também dois temas de desenvolvimento:

a) A natureza do hábito.
b) O idealismo como resposta possível ao problema da essência do conhecimento.

A quarenta anos de distância, que posso dizer? Estas provas ditas “de cultura” eram as que mais me preocupavam. Como se pode ver, a amplitude das áreas de onde derivariam as questões era enorme. De certo modo, este exame não tinha preparação possível (por isso a ideia de ser uma prova de “cultura” assentava-lhe bem). Ou se sabia dissertar sobre o tema ou não se sabia. Recordo-me que quando pensava “vou começar a pensar no exame…” desistia logo a seguir. E argumentava para comigo que seria difícil surgir um tema sobre o qual eu não soubesse nada…
No meu diário de estágio dediquei ao exame 7 linhas… “Incomparavelmente melhor a prova de História: a de Filosofia, mais rebuscada, menos “livre” na sua expressão. Não saí, de qualquer delas, com a impressão de ter feito coisa em grande. Se as classificasse pelas provas da Faculdade, diria que a de História poderia chegar ao 14, e a de Filosofia oscilaria entre o 12 e o 13. Mas: passou-se, e era o que importava!”

Há quarenta anos as bitolas para as classificações eram diferentes das de hoje. A minha auto-avaliação pecou por defeito: os meus metodólogos atribuíram-me 15 valores (não havia duas classificações separadas mas apenas uma, certamente a média de ambas).

Ora estas provas eram prestadas depois de, durante dois anos lectivos (que era o tempo que durava o estágio) os professores metodólogos terem tido connosco um contacto quase diário, de terem visto algumas dezenas de aulas, de nos terem questionado, discutido temas das disciplinas, em suma, de poderem ter uma ideia clara do que cada um de nós “valia” em temos de conhecimento dessas mesmas disciplinas. Seriam pois necessárias estas provas? Sinceramente: não eram. Talvez num aspecto fossem úteis: podiam preparar a nota final, porque não seria indiferente ter 15 ou 11; e embora essa diferença fosse detectada ao longo do estágio era mais difícil estabelecê-la em dígitos sem uma “prova” mais objectiva.

Em relação ao exame de Estado, a minha opinião é diferente, mas dele falarei na altura própria, nos dias 27 e 28 deste mês.