A pergunta pode parecer estranha para quem publica um – mas para mim não é. Quando comecei a deter-me em blogs, muito tarde para a maioria dos que já há anos estão disponíveis, a minha primeira impressão foi ligar a maior parte a diários pessoais, mais ou menos intimistas, e outros a projectos tipo jornal – aliás, alguns deles eram mesmo isso, porque eram base para artigos na imprensa escrita. Outros ainda exploravam a veia humorística, outros artística; em qualquer caso, apareciam a meus olhos como iniciativas pessoais, nas quais o autor publicava, sem qualquer interferência, o que desejava. A hipótese de haver comentários surgiu-me na altura como uma abertura para um confronto de ideias clarificadoras e – devo dizer – esse foi um dos aspectos que me aliciou.
Demorei no entanto a aderir, se bem que durante ano e meio tenha usado um blog como ferramenta pedagógica num curso de mestrado; mas a um dado momento decidi-me. No meu primeiro post de A Memória Flutuante, escrevi:
Há quase cinquenta anos que tenho estado envolvido no mundo da educação … Guardo pois uma memória destes últimos anos (por vezes apoiada em documentos que conservo). Não me parece que escrever um livro de memórias tivesse qualquer interesse. Pelo contrário, penso que alimentar um blog com algumas dessas memórias pode ser interessante para alguns e provocar (por que não?) um diálogo esclarecedor em relação ao passado.
Assumi pois que o meu blog poderia ser qualquer coisa que ficasse a meio caminho desse livro de memórias que em princípio não irei publicar e de uns esboços de capítulos desse mesmo livro. Nos três meses que levo a, com alguma regularidade, publicitar as minhas ideias, verifiquei com algum espanto que havia quem “me” visitasse e dialogasse, anuindo e discordando, dando achegas rectificadoras sobre o que escrevia, e até cheguei a ter correspondência por e-mail, num diálogo que no blog teria pouco cabimento mas era importante para esclarecer um ponto nebuloso. Conheci bloggers cheios de interesse, com quem estabeleci laços de simpatia (digo assim porque escrever amizade seria porventura ir longe demais, pelo menos considerando o meu conceito de amizade). Tive numerosos posts sem comentário – o que é normal. Por meu lado, visitei de modo irregular muitos blogs e seleccionei alguns para visitas mais assíduas (a lista de links diz quais).
Ultimamente, alguns dos blogs que eu visitava terminaram ou manifestaram a intenção de desaparecer. Não vou dizer que não seja natural – tudo o que existe tem de ter um fim – mas ver sair da blogosfera alguns blogs cheios de interesse, e independentemente das razões dos seus autores, levou-me à interrogação: afinal, o que é um blog?
Uma pesquisa rápida na Internet fez-me chegar a um blog da Escola de Direito de Harvard que me deu, não uma definição, mas um conjunto de características necessárias para um blog com as quais concordo em absoluto: o autor (ou autores) escreve sobre a sua própria experiência, em liberdade, sem quaisquer cuidados de edição, vindo claramente à superfície a personalidade do escritor (que se considera o elemento essencial de quem escreve blogs).
A esta luz, que posso eu esperar, que podemos nós, autores de blogs, esperar, ao lançar as nossas ideias na Net? Nunca pensei em fazer do blog um muro de lamentações nem tão pouco um libelo acusatório permanente contra instituições ou pessoas. Nunca me incomodou muito se era ou não lido, se era ou não comentado. Há quatro anos que mantenho na Rádio Universitária do Minho uma crónica semanal. Não sei quem me ouve, até se alguém me escuta, mas gosto de a fazer. Aqui, sei de uma dúzia de bloggers que me lêem – e sei, deles, algo mais pelos seus comentários, que gosto muito de ler – mas nada sei de muitos outros. Tudo bem. Se aquilo que digo despertar um pouquinho do interesse de quem aqui vem, penso que o blog se justifica. Resta a dúvida: e se ninguém procurasse A Memória Flutuante, ela justificar-se-ia? Desfiz a dúvida pensando: se eu publicasse um livro que ninguém lesse, teria sido justificável escrevê-lo? A resposta veio clara: com certeza. Porque ele me pertencia e podia fazer dele o que quisesse: publicá-lo, metê-lo na gaveta, inclusive queimá-lo se o detestasse. Assim o meu blog continuará a ser o que quis que ele fosse: porque escrevo em inteira liberdade, com mínimos cuidados de edição (este blog não é um blog “científico”…), e porque sei que nas minhas palavras projecto a minha autenticidade, coisa que muito prezo.