2005/04/19

Os graus no ensino superior


Entre os aspectos que Bolonha trouxe à discussão situa-se o nome dos graus a conceder no ensino superior. Há quem defenda que Portugal alinhe com a maior parte dos países, eliminando o grau de licenciado e considerando os de bacharel, mestre e doutor. Há quem não aceite o pôr de parte o título de licenciado, argumentando com o peso de uma tradição e, também, com a possível desvalorização que tocaria a quem o possui.

Confesso que este ponto não me suscita grande emoção. Talvez pela influência anglo-saxónica que assumo, claramente, e porque penso que tal facilitaria os contactos internacionais, voto pelo trio bacharel – mestre – doutor.

Como muitos saberão, a designação licenciatura tem raízes nas universidades medievais: inicialmente, após o curso, o chanceler concedia a licentia docendi, isto é, a licença de ensinar, o que a maior parte dos laureados iria de facto fazer nas igrejas. A continuação dos estudos levava ao título de Mestre (concedido numa cerimónia chamada inceptio), título esse que se confundia mesmo com o título de Doutor. Mas com o rodar dos séculos a licentia docendi foi perdendo importância, e em Portugal, no século XIX, o grau mais prestigiado era o de bacharel (aliás, bem documentado na literatura da época). As licenciaturas permaneciam mas eram como que preparatórios para o doutoramento. No século XX, já com a República, continuaram a existir bacharelatos e licenciaturas, mas a pouco e pouco os primeiros foram desaparecendo a ponto de, em meados do século, só haver licenciaturas. O grau de bacharel é depois restabelecido quando da criação dos politécnicos.

Como é evidente, a extensão dos estudos foi sempre um factor determinante para serem distinguidos pelo nome. Assim, embora as actuais licenciaturas (algumas de 4, outras de 5 e até de mais anos) se tenham já depreciado em relação a um passado não tão distante como isso, vamos agora continuar a designar como licenciaturas os possíveis cursos de 3 anos (1º ciclo)? Como é evidente, os “velhos” licenciados sentir-se-ão pouco felizes…

Pode argumentar-se, contudo, que o mesmo se passa em relação aos actuais mestres, que necessitaram de pelo menos 6 anos (4 de licenciatura e 2 de mestrado) para o grau e no futuro verão formar-se colegas mestres com apenas 5 anos de estudos superiores. Bom, quando há alterações profundas num sistema não se pode evitar alguma incomodidade.
Mas, como disse inicialmente, não é este o aspecto do chamado "processo de Bolonha" cuja resolução mais me preocupa, seja ela qual for…

2005/04/18

A paisagem que me acompanha no dia-a-dia...


Sentado à secretária do meu gabinete é esta a paisagem em que posso repousar os meus olhos do excesso de computador e papel...
Posted by Hello

2005/04/17

A Fortaleza de If (ao largo de Marselha)


Falei ontem de um dos meus heróis de romance quando quase pouco mais era do que criança (era mesmo criança...): Edmundo Dantès. Alexandre Dumas fê-lo prisioneiro da fortaleza de If, construída num rochedo em frente a Marselha. Fica a fotografia da ilha e forte, tirada em Dezembro do ano passado. Infelizmente não pude visitá-la porque o estado do mar não permitia o acesso à embarcação que faz as viagens turísticas. E não querem crer que tive pena?
Posted by Hello

2005/04/16

A resposta ao desafio


Se quiser visitar as Fábulas (e merece a pena, se não o fizeram já) verá que fui desafiado a não quebrar uma rede que existe no mundo dos blogs. Eu sempre quebrei aquelas redes patetas que de vez em quando apareciam pelo correio normal (estou agora a pensar que praticamente desapareceram, mas muitos dos meus leitores lembrar-se-ão delas), mas esta não posso nem quero quebrar, tentando respeitar o estilo que se está a criar na blogosfera. Aí vão, pois, as minhas respostas às cinco perguntas e os convites para novos “enredados”.

1. Não podendo sair do Farheneit 451, que livro quererias ser?

Morrer queimado não se deseja ao maior inimigo… Nenhum livro merece ser queimado, mesmo aqueles a que falta dignidade. Se sou contra a pena de morte nos humanos, como seria a favor da morte de livros? (Penso que interpretei o sentido da pergunta…)

2. Já alguma vez ficaste apanhadinho por um personagem de ficção?

Quase ainda criança (comecei muito cedo a ler livros porventura não muito próprios para a idade) quis ser o Edmundo Dantès de O Conde de Monte Cristo. Depois, julgo que fui sempre capaz de lidar com a ficção e a realidade de tal sorte que personagens foram sempre personagens, simpatias e antipatias ficando sempre a esse nível. Nunca me apaixonei por uma personagem nem desejei matá-la...

3. Qual foi o último livro que compraste?

Bom… Normalmente, os livros “de ler” não os compro eu mas a minha Mulher; as minhas compras, nas visitas que faço a livrarias, são de livros que me interessam na área das minhas preocupações (educação) e muito raramente de outros temas. Creio que o último livro que comprei foi Um Roteiro da Educação Nova em Portugal, de Manuel Henrique Figueira, edição dos Livros Horizonte (2004).

4. Que livros estás a ler?

No que se refere a livros de “ler” (isto é, estilo romances, novelas) estou muito abaixo do que quereria, porque tenho de me dedicar a outras leituras (e essas requerem compulsar vários livros ao mesmo tempo). Desde o Natal, porém, ando ás voltas com A Minha Vida, de Bill Clinton. É um volume de quase mil páginas! Aprecio muito biografias, ainda mais autobiografias, e tive sempre muita simpatia por Clinton (assisti nos Estados Unidos ao começo da sua campanha para Presidente e dei-lhe crédito como político; e como político provou ser muito bom). Não tenho neste momento “livro de cabeceira”.

5. Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?

Os Lusíadas, de Camões, Os Maias, de Eça de Queirós, Aparição, de Virgílio Ferreira, Guerra e Paz, de Tolstoi, O Fio da Navalha, de Somerset Maugham. Peço desculpa mas Saramago não passa. Esta foi a resposta mais ou menos séria, porque noutro registo talvez me propusesse levar uma Enciclopédia (a Verbo século XXI, por exemplo, porque sempre variaria mais de leitura…)

6. A quem vais passar este testemunho (três pessoas) e porquê?

Parte difícil! Sou recente nos blogs para ter um grande campo de escolha… Esperando que aqueles a quem convide tenham o mesmo “fair play” que eu, não dizendo “não” à Saltapocinhas, passo o testemunho ao Outroolhar, ao Acontecencias e ao Educação Comunitária. Razões: os dois primeiros, porque têm mantido um diálogo interessante, aberto, estimulante, com este blog; o terceiro porque tem a gestão de um colega que nos anos 80 trabalhou comigo na Escola Superior de Educação de Faro e tenho a certeza que não se importará de o desafiar…
Estou desobrigado. Satisfiz a curiosidade?...

2005/04/15

As Crónicas na RUM (3)


Não se percebeu muito bem aquela manifestação dos estudantes dos ensinos básico e secundário de quarta-feira passada. Segundo os jornais teriam sido uns mil – uma percentagem pequena da totalidade; e, além disso, a Confederação Nacional de Associações de Estudantes do Ensino Básico e Secundário demarcou-se da movimentação, sugerindo, no comunicado, que teriam havido motivações políticas, dada a vida útil do novo governo.

Se de facto assim foi, bem pode dizer-se que começam cedo…

Mas o que mais me impressiona é aquela insistência dos manifestantes em quererem uma disciplina de Educação Sexual! Ou seja, dito de outro modo, quererem “aulas” de Educação Sexual. Os colegas da Confederação criticam: seria melhor uma disciplina de Educação Cívica, onde esse e outros temas fossem abordados. Têm mais siso.

É isso. A ideia das disciplinas está tão enraizada que é difícil exterminá-la. E no entanto, há aprendizagens que são sem dúvida muito mais produtivas se desenquadradas do espartilho de uma disciplina, e a meu ver, a educação sexual constitui um bom exemplo.

Uma outra exigência dos jovens alunos é, imagine-se, que este governo ponha imediatamente em vigor a Lei de Bases que o governo de Durão Barroso deixou e o Presidente da República vetou. Perdoe-se-lhes a ingenuidade (talvez ignorem o veto ou nunca lhes tivesse sido explicado o que isso significa). De qualquer forma, esta maneira de os estudantes adolescentes porem as questões não deixa de me preocupar.

Eu não sou dos que pensam que os estudantes devem aceitar sem crítica o que os afecta. Mas ponho também muitas dúvidas sobre a bondade de muitas dessas críticas. Claro que muitas vezes não fazem mais do que fazer suas bandeiras de adultos que por uma ou outra razão estão contra o que se determina pelo Ministério da Educação, quando lhes convém. Neste caso da “exigência” da reposição da lei de bases da educação, a que na altura própria dediquei uma crónica nestes microfones, estava em causa uma mudança estrutural do sistema educativo de muito duvidoso interesse, restringindo o ensino básico a seis anos e regressando a um ensino secundário de outros seis. Disse na altura que não percebia por que razão se tinha de alterar um esquema que fazia sentido e permitia soluções adequadas, e que se iria criar uma enorme confusão (mais uma!) na rede escolar, já conformada com a situação actual.

Continuo a pensar que em educação devemos ser muito cautelosos em relação a grandes reformas. Deve haver um mínimo de estabilidade no sistema e introduzir as alterações que se considerem necessárias por pequenos passos, evitando regulamentar excessivamente, deixando margem de manobra às escolas para decidirem em função da sua realidade. Porque é na sua escola que os alunos devem participar, perguntar, discutir – não em grandes manifestações de rua…

Uma última palavra para a inauguração da Casa da Música no Porto. Um grande momento para o norte do país.

Até para a semana.