Em posts anteriores tenho manifestado discordâncias com o teor dos artigos de Maria Filomena Mónica (MFM), dada a sua verrina contra não sei bem se as ciências da educação se com os que a elas se dedicam. O artigo “A Covardia dos Intelectuais”, publicado no Mil Folhas de sábado passado e que confesso só li depois de alertado na minha visita a blogs amigos, merece uma análise um pouco diferente.
Em primeiro lugar porque estou de acordo com ela em vários aspectos – o que me deixa satisfeito, porque me cauciona uma certa isenção… Em segundo lugar porque o tema é, na verdade, muito interessante.
Vamos aos acordos. MFM refere Lyotard, eu refiro Fred Keller e o seu célebre artigo “Good-bye, Teacher”, publicado no Journal of Applied Behavior Analysis em 1968 (com perspectivas diferentes, claro). Como ela, eu penso que o professor é insubstituível sejam quais forem os progressos tecnológicos, tal como penso que “o que nos marca para a vida é a personalidade de um professor”.
Em segundo lugar (surprise! surprise!) eu também defendo que a Universidade deve ser elitista (embora num conceito de elite um pouco alargado, porque uma elite em rigor não pode ser muito numerosa). (Vamos ver o que me acontece…) Na Universidade não deve haver lugar para a mediocridade, sejam quais forem as suas causas: só não gostaria de chamar “estúpidos”, como MFM faz, aos que não conseguem intelectualmente atingir o nível de exigência dos estudos superiores, mas na verdade esses, bem como os que simplesmente não querem estudar, não deveriam ser admitidos.
Ainda um ponto comum: também me penaliza a ideia de que as aprendizagens no ensino superior universitário tenham de ter sempre uma finalidade utilitária, não dando margem ao aprender por aprender (e como eu estudei e ensinei Filosofia sinto-me perfeitamente à vontade para escrever isto).
E aqui acabam as convergências no que se refere à escola. Para mim a escola básica, universal, tem de ser para todos e a todos tentar integrar socialmente com os conhecimentos (e competências…) aceitáveis para o nível considerado (no nosso caso, actualmente, o 9º ano). Numa escola que se consiga organizar como deve, a flexibilidade curricular encontrará os meios para permitir a convivência de alunos com graus de desenvolvimento diferentes sem recorrer aos chamados “currículos alternativos” (uma triste invenção nacional até no termo escolhido). Mas chegado ao fim dessa escolaridade, deve haver selecção, e séria (já no acesso ao secundário). O problema da condição social ou foi resolvido antes ou terá, infelizmente, de não ser aqui considerado.
Contudo, nós não podemos mudar o curso da história. Os estudantes de hoje não são iguais a mim e a MFM quando tínhamos a idade deles. Podemos achar que é pena que em vez de se ir mais vezes ao cinema se frequentem discotecas, que em vez de longas conversas à mesa do café se prefiram salas de “chat” na Internet ou ainda em vez de passar horas em bibliotecas treinarem-se intensamente em jogos de computador. Mas a verdade é que os computadores existem e é bem mais sábio conviver com eles do que lutar contra eles.
Eu estava a acabar o meu curso na Faculdade quando a RTP começou a emitir a sua programação. Não sei pois o que é ser estudante (enquanto moço) tendo a televisão como distracção. Mas ela existe hoje, com programas maioritariamente idiotas.
O mundo mudou e com ele os enfoques culturais (e é verdade, MFM tem razão, porventura muitos dos sociólogos críticos foram, são responsáveis por uma espécie de niilismo cultural onde há uma verdadeira confusão de valores; e o mesmo se passou com as chamadas “pedagogias revolucionárias” que proliferaram e proliferam e que não têm nada a ver com a ideia de educação que defendo). Mas não vale a pena lutar contra moinhos de vento se não possuirmos bulldozers.
Nos últimos três anos, e penso que para o ano vou repetir a experiência, dei aulas a alunos de mestrado numa disciplina intitulada “Currículo e Cultura” e tive oportunidade de conviver com estudantes das áreas das expressões artísticas – música e educação visual e plástica. Eu sei que para um mestrado as condições de admissão são relativamente exigentes, mas os meus alunos estavam longe de ser “ignorantes” e alguns deles foram mesmo excepcionais na sua área de competência. Procurei fazê-los pensar sobre o papel da escola como agente de cultura, partindo da sua formação artística, tendo como realidade a pós-modernidade em que vivemos, com os problemas levantados pelas relações multiculturais. Porque esta é a realidade. Facilitei? Em meu entendimento, não; mas também devo dizer que me repugna, por natureza, não tornar acessível o que pode ser tornado acessível. Penso, mesmo, que uma das maiores qualidades de um professor é a clareza da sua exposição, quando tem de expor, sem sacrificar, claro, a mensagem que transmite.
Ao responder assim ao desafio que representa, para um professor universitário, ademais na área de ciências da educação, confrontar os seus estudantes com um conjunto de problemas que relevam da organização curricular em áreas consideradas essencialmente áreas de cultura, tentei sobretudo criar condições para que eles (e elas) se questionassem e às suas práticas (a maioria ensinava). O
blog que criámos (nos dois últimos cursos) ajudou muito (se a tecnologia existe, por que não usá-la?), mas creio que não me substituiu…
Não tenho, noutras instâncias, sido covarde (na lógica de MFM)? Provavelmente, sim, tenho facilitado, em circunstâncias claramente delimitadas por uma lógica que me ultrapassa mas tenho de compreender, por derivar de decisões políticas geral com as quais não concordo mas não tenho autoridade moral para contestar (dito deste modo pode parecer hermético mas será melhor que fique assim).
Ainda queria referir, para terminar, e porque MFM referiu o contexto internacional, que pelo menos nos EUA, que conheci bem, fiquei com a ideia que só ao nível das pós-graduações começa a funcionar a “elitização”: a própria Universidade é relativamente branda a formar os “bachelors” e só nos cursos de mestrado e doutoramento introduz mais exigência. Não será inelutável que isso aconteça também aqui?
Penso que para um post é prosa demais, mas para continuar a discussão já deve ter matéria bastante…