De tempos a tempos, António Barreto escreve sobre educação. António Barreto é um homem inteligente e por isso deve ter-se em atenção o que escreve, mesmo que não se concorde com ele (e, por motivos para mim óbvios, não tenho concordado muitas vezes). Ora hoje, António Barreto publica no Público mais um artigo, que intitulou “Sete pecados capitais”, que, se lhe passou, pode ler aqui.
Curiosamente concordo desta vez com algumas das suas análises. E vou permitir-me, neste post, dar conta da minha leitura, das minhas concordâncias e discordâncias. Começo por dizer que Barreto vem dar razão a uma das minhas convicções: que tem havido, ao longo dos últimos quase 40 anos, um grande consenso em relação às políticas educativas. Havendo esse consenso, não haverá alguma razão para ele?
Enumero, em seguida, os pontos de acordo, seguindo a lista dos “pecados” por ele referidos.
É verdade que o dinheiro não é a solução para a educação. Tal como se costuma dizer que o dinheiro não traz a felicidade, eu diria que em educação o dinheiro não é o fundamental. Há desperdício, de facto, a todos os níveis, desde os equipamentos caros que apodrecem sem uso a formações caras sem qualquer retorno para quem delas deveria beneficiar. Conclusão: tem havido alguma incúria no modo como se gasta o dinheiro na educação.
Em relação ao número de professores, claro que há professores a mais, mas neste ponto não penso que alguém julgue que isso seja necessário para a educação; o que tem havido é um péssimo planeamento tendo em vista as necessidades e uma enorme complacência dos Governos em aceitar que se continuem a abrir cursos de formação.
Centralização: uma vez mais, acordo absoluto. Sempre fui contra e mesmo quando trabalhei nos serviços centrais do Ministério sempre defendi uma maior autonomia das escolas e um papel activo das autarquias. Um dia contarei uma história interessante acerca de como por vezes resolvia situações que me eram postas.
Por arrastamento, estou de acordo com a ideia de as escolas funcionarem em sistema fechado e de viverem em instabilidade. Salvo raras excepções, as escolas cultivam uma política de desculpabilização permanente, fecham-se por demais à sociedade – a começar pelas famílias dos alunos. O não se resolver o problema da colocação dos professores de modo a dar mais permanência a quem ainda não tem um estatuto de efectividade é um dos maiores males da educação.
Vou agora falar dos dois pecados que, em sete, Barreto considera como tal e eu não.
Para ele, as modas são um pecado. Antes de mais, ainda que possa anuir que há “modas” em pedagogia (como aliás em todos os sectores da vida social, mesmo que exista suporte científico para elas) elas não devem ser consideradas um mal em si, e as eventuais consequências negativas devem ser atribuídas a outros factores (que derivam dos outros pecados com os quais concordei) e não à moda em si. António Barreto, por exemplo, considera o “facilitismo” como a coroa da glória dessas modas. Ora ninguém com conhecimentos sérios no campo da educação advoga o facilitismo. Penso que nunca terá lido qualquer texto responsável que o autorize a dizer isto. Alguns aspectos que ele enumera como manifestações desse facilitismo podem ser enunciados sem a ele conduzir. Estudar pode ser um prazer, há momentos na escolaridade em que a reprovação não deve existir, os exames podem ser, de facto, fonte de stress. Quando um professor procura conhecer o estilo de aprendizagem de um aluno para lhe proporcionar um processo de estudo mais profícuo não está a facilitar mas a ajudar. Quando se define que ao nível do ensino básico a reprovação deve ser evitada há de facto uma protecção à criança – no sentido de não lhe retirar mais oportunidades de aprender. Quando se tenta substituir o exame por outras formas de avaliação mais equitativas (mesmo sem stress, o exame tem aspectos questionáveis em si) não se está a anular a necessidade de algum controlo das aprendizagens.
Continuando a análise, onde terá Barreto lido que “os professores e os estudantes são iguais em responsabilidades, direitos e deveres”? que “os «saberes» e as «competências» são mais importantes do que os conhecimentos e o treino”? e que “a cultura geral e os clássicos, numa palavra, a educação «livresca», são privilégios das classes favorecidas”? Diz eles que estes são disparates feitos políticas. Não conheço nenhuma política que iguale as responsabilidades, direitos e deveres de professores e estudantes, nem sequer na Universidade. Ao assumir um ensino-aprendizagem baseado em competências nunca se puseram em causa conhecimentos (que são saberes?). E também não me recordo de alguma vez ter visto a defesa dessa tese estranha de que a educação ”livresca” seja privilégio de classes favorecidas… (a educação livresca deve ser banida para todos, porque não é ela que “dá” cultura, e não por ser privilégio de classe).
Referirei finalmente o último pecado, o da gestão democrática. Não deixo de reconhecer que reveste problemas, como acontece em qualquer situação democrática (o tal sistema que não sendo perfeito é o menos mau…), mas aquela ideia de pôr nas escolas gestores ditos “profissionais” não me seduz.
No final do artigo, António Barreto vem de novo enumerar os responsáveis pelos males da educação, os pecadores, portanto, nos quais inclui muita gente (eu também lá estou, em algumas categorias que ele define: não como político, não sei se como burocrata, na sua visão, mas certamente como “especialista”, embora recuse sê-lo, e também como professor que já foi duas vezes eleito pelos seus pares e numa vez também como o voto de estudantes). Só que o resto do seu discurso enferma daquele defeito comum a quem, chamando aos outros demagogos, acaba por ser também demagogo, ao assacar a todos a responsabilidade de tornar a escola uma instituição fechada, escorraçando os que do exterior poderiam vivificá-la. Não são todos os que assim procedem. Há, no mundo global da educação, muitos protagonistas responsáveis. Que lutam contra a situação existente com armas limpas. Há muito a mudar? Há. Devem ser definidas, a nível do Governo, políticas que tendam a eliminar aqueles pontos negativos que acima enunciei? Devem. E devem sobretudo ser definidos critérios para os graus de liberdade que têm de existir, tanto nas escolas como em relação aos professores, com os consequentes termos de responsabilidade que a sociedade deve exigir a quem tem nas suas mãos a educação dos seus filhos. E até aí continuo a estar de acordo com António Barreto.
Não se pense, todavia, que é fácil essa mudança. Não é difícil a critica nem talvez seja difícil enunciar remédios. O que não é fácil é pô-los em prática.